Tem havido manifestações em grandes cidades brasileiras, que inicialmente voltavam-se contra os aumentos das passagens de ônibus urbanos. É fora de dúvidas que são preços altos e pesam significativamente nos orçamentos dos usuários. Essas manifestações tomaram dimensões muito grandes e persistem com a força inicial, agora voltadas contra quase tudo que envolva aspectos de interesses individuais e de grupos.
Não compreendo bem as movimentações – que são algo relevante – mas acho realmente difícil e até arrogante pretender compreender coisas assim amplas rapidamente. É preciso perceber, além do presente e dos interesses em jogo, os episódios históricos semelhantes que se podem por como termos de comparação.
Mas, não escrevo para tentar perceber as manifestações, que envolveram muita violência policial, inclusive. Escrevo para rir-me de algo realmente cômico.
Dois meios de comunicação hesitaram por uma semana antes de se posicionarem taxativamente sobre as manifestações, o que deixou a classe média sem ter o que pensar delas também, porque não pensa exceto pelo que pensam para ela.
É verdade que um e outro, isolada e apressadamente, expuseram opiniões advindas das profundezas duodenais. Foi o caso do tolo enfurecido Arnaldo Jabor, que desfiou lugares-comuns como baderna, arruaça e coisas do gênero, aptas a emocionarem seu público cativo de superficiais propensos ao linchamento e à defesa da atividade policial como prende e arrebenta.
Acontece que os patrões, após a hesitação inicial, perceberam que havia dividendos políticos a se obterem da coisa, dizendo, enfim, que era revolta popular contra o governo. Demoraram um pouco, mas perceberam que servia aos designios monômanos de atacar governo que cometeu o pecado de trabalhar mais pelo país que por patrões estrangeiros e promoveu discreta redução nas abissais desigualdades socias.
Não vejo Globo, mas creio que o patético Jabor já deve ter-se desdito, na mesma linguagem tão exasperada quanto cheia de verdades que adota. O patrão dele deve ter-lhe dito da imbecilidade em que incorrera, deixando-se levar pelas categorias poucas que o pautam. Devem ter-lhe dito que a coisa era boa para falar mal do governo e ele, tão gênio, não percebera, mais afeto ao pensamento duodenal que ao cerebral.
O caso é que comicamente, por uma semana, era impossível encontrar alguém com opinião sobre as manifestações, porque a Veja e a Globo ainda não lhas tinha fornecido.
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Há vários interlocutores condicionados por sistemas axiomáticos de matriz judáico-cristã com que tenho algum contato. Vez e outra, convidam-me ou insinuam o entabulamento de alguma conversa que será conduzida inexoravelmente para alguma coisa do velho texto da bíblia hebráica.
Uns dominam a axiomática derivada desses textos e alguma coisa de Aristóteles, além de terem sinceros propósitos conversadores, mesmo que cheios do final, ou seja, cheios previamente de verdades. Eles gostam essencialmente da conversa e devem achar bom o feed-back de lógica formal que não me é muito difícil dar-lhes.
Com esse primeiro tipo, converso de bom grado, evito os axiomas em si e fico pela laterais a saborear uma e outra operaçãozinha silogística em que conclusões fecham bonitinhas porque as premissas foram bem colocadas. Não ponho em causa as premissas, nem digo que afinal outras dariam conclusões também perfeitas.
Essas pessoas percebem mal que giram na regressão infinita ou, melhor dizendo, que evitam a regressão infinita como se fosse possível parar o infinito em apenas um dos lados.
Dia desses, meu interlocutor queria conversar sobre criacionismo e dizer que era absurdo o modelo do big bang – e tenho certeza que ele e eu ignoramos o Big-Bang na mesma e profunda medida – porque esta criação retrocederia ao nada.
Ainda pensei dizer-lhe que esse nada inicial era a mesma coisa que a Deidade inicial, estaríamos sempre e ainda com o modelinho causual aristotélico. Fôssemos com criação divina, fôssemos com Big-Bang, iríamos sempre tentar travar a regressão infinita num termo ou causa inicial. No fundo, era o mesmo, mas dizê-lo, assim sem mais, era apostatar e escandalizar o interlocutor contra que nada tenho.
Meu conversador indagava o que haveria antes do Big-Bang e isso não era armadilha intelectual, nem triunfalismo prévio do sujeito a gozar o esmagamento do outro por uma verdade pesada; era o dizer sincero de um homem preocupado com isso e disposto a encontrar alguém disposto à conversa e munido de algumas habilidades para o joguinho de causas, efeitos, exclusões.
Assim, ele fixava a criação divina, algo que não me escandaliza, nem me parece mais nem menos plausível que qualquer outra coisa. Mas, não digo isso, pelo menos a quem acho merecedor de respeito. E também não o digo a quem não acho merecedor de respeito, mas por razões diferentes, é claro.
O problema da criação é tão complicado que para mim é melhor posto como um não problema. Qualquer que seja a fórmula, ela é objetável pela evidente insinuação da regressão infinita, porque uma linha – e tempo pode ser precariamente visto assim – infinita não o é apenas num sentido, senão não seria infinita.
Se o sujeito tem fixação fetichista com começo, pouco importa onde o situe, mas importa logicamente que aceite um fim também. Como o fim não é aceite – nem na axiomática que crê numa parusia, posto que ela é fim num plano mas não no todo – o início tampouco é concebível: não há infinito só para um lado.
É claro que pôr um Deus ou o Big-Bang no início permite, para ambos, que se pergunte o que havia antes. Não é um Deus inicial que inibe a regressão, porque virá inexoravelmente a questão do que ensejou este Deus. Assim, no fundo, as duas proposições serão quase as mesmas, com diferenças de graus poéticos e públicos visados. Dá no mesmo, porque Deus ou Big-Bang, ambos podem ter ou não antecedentes.
Há, porém, outro tipo de sujeito conduzido pela axiomática religiosa, assim como outros conduzidos pelas variantes da religiosidade científica. Interessa-me o tipo conduzido pela axiomática judaíco-cristã que, ao invés de diretamente querer falar da criação a partir dos velhos textos genéticos quer transbordar seus valores vulgares a partir de frases feitas, de lugares-comuns, enfim.
Esse segundo tipo tem especial predileção por frases de efeito e especial aversão pelo pensamento um grau mais livre que a média do vulgo. É, basicamente, para não ficar a teorizar nem a colecionar exemplos muitos, o sujeito que gosta de dizer que política e religião não se discutem, que gostos não se discutem, que todo sujeito com mais de trinta anos torna-se conservador se não for burro, que um revolucionário acaba-se aos trinta anos e outras vulgaridades, tão comuns e aceites quanto tolas.
O colecionador de frases é o sujeito crente que as pessoas tendem a tornar-se ele e seus modelos e cheio de júbilo ao perceber um e outro caso que seriam gloriosas conversões próximas à mediocridade reinante e indicadora da normalidade a ser atingida.
Realmente, daria quilômetros de texto o estudo da satisfação do vulgo com o que ele acha oportunidades próximas de converter mais gente à vulgaridade. É a satisfação de quem antevê a conversão do que não compreende para o vocabulário escasso que adota, para o manejo de quatro ou cinco categorias imutáveis de moralidade de escravo, para a tendência ao linchamento e ao julgamento sumário.
O segundo tipo dessa gente caracteriza-se pela falta de autenticidade. São prosélitos da mediocridade, do conservadorismo que se quer disfarçar, da tendência à homogeneização pelo mais baixo, da inutilidade da liberdade de pensamento, do vale-tudo quando se tratar de manter-se a situação social.
Esta falta de autenticidade será revestida de uma mansidão de voz baixa e pausada que não revela conhecimento, mas cálculo frio de dissimulação da coleção de perfídias e baixezas que lhe suportam.
A tolice da frase feita deste tipo é não apenas tolice, mas um deleite de vingança. Os medíocres de todos os tempos e lugares vingam-se, e seu meio preferencial é vaticinar a estupidificação do que não aceitam não ser totalmente vulgar. É a raiva de tudo e todos não serem espelhos de si mesmos.
O homem excelente não se sente atingido por haver o vulgo: ele, talvez, lamente a vulgaridade, mas não a crê contra ele, nem quer ser prosélito do que é, para converter o vulgo. O vulgo, este quer e precisa que vulgares sejam todos.
Voltei, neste escrever, a Ortega y Gasset, como muitas vezes, sem achar que prodigalizo nesse retorno. O homem, referido aos valores, será nobre ou vulgar. Referido a si mesmo, será autêntico ou não autêntico.
O segundo tipo que desenhei, em traços rápidos, é vulgar e inautêntico. Ele fala de valores moralizantes, o que equivale a falar de nada ou, no máximo, do que acha serem valores, a confundir subjetividades moralizantes e vontade mal disfarçada de homogeneização com valores.
O tipo não tem valores, tem apenas balizas e preconceitos de sobrevivência, recebidos de fora e assimilados sem pensar. Valores são categorias ontológicas e não são axiomas de matriz religiosa e tampouco anti-históricos.
O tipo está em desconformidade consigo próprio, é essencialmente inautêntico, porque insincero ao propor frases feitas e lugares-comuns. Ele não quer que essas tolices sejam modelos do homem excelente, ele quer que todos sejam ele, sem o dizer claramente. Ele proclama a tolerância sem acreditar em milímetro de tolerância e sem nunca ter pensado no que consiste isto.
Ele proclama que não há parâmetros e que gosto não se discute, o que é perto da máxima imbecilidade proponível e ao mesmo tempo não acredita nisso.
O segundo tipo, o axiomático inautêntico, nada discute, não tem gostos, tem raiva profunda e desejo de vingança profundo e fala mansamente. Ele é o tipo apto a vencer…
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Quando há tempo, gosto de gastá-lo da forma mais trivial possível: no mercado, a perambular e a pegar este e aquele produto, ler de que se compõe, de onde veio. Coisas de quem tem que perambular em uma grande cidade pequena desprovida de uma livraria…
Eis que me deparei com uma embalagem bem simpática de talharim, uma caixa em papel cartão, de bom gosto e simples. Vi que é feito em Recife, o que me surpreendeu um pouco pois não sabia dessa indústria de massas relativamente caras e supostamente de qualidade.
Vi, na lateral da caixinha, que o talharim era koscher, o que me interessou porque o rabino pode ser mais eficaz que a vigilância sanitária e porque revela que visam a clientela usualmente mais exigente. Peguei da caixa e segui a andar e a observá-la. Na outra lateral, havia uma receita, coisa que geralmente pouco me interessa. Mas, essa interessou-me, não para a reproduzir, mas para fazer algo parecido.
Era de um molho com salmão fumado, natas, mostarda em grãos e pimenta do reino moída. O salmão fumado é, ao mesmo tempo, delicado e profundamente saboroso, pelo que se pode usar pouco com grandes resultados. Pensei que esta riqueza de sabor acrescida de outros também muito marcantes, como os da mostarda em grãos e da pimenta podia resultar algo muito pesado. Mesmo que estejamos, hoje, com temperaturas agradabilíssimas à volta de 21º e sejua domingo, não convém uma avalanche de gostos pesados.
Resolvi trocar as natas por creme de leite leve, suprimir a pimenta do reino, trocar a mostarda em grãos por mostarda cremosa de Dijon e colocar o sumo de meia lima da Pérsia, profundamente aromático e enaltecedor do sabor fumado do salmão. E resolvi, ainda, acrescentar um pouco de camarões médios previamente cozidos na água e pouquíssimo sal. Os camarões assim cozidos ficam delicadíssimos em termos gustativos e conseguem impor seu sabor ao molho mesmo com pouca cocção.
Tomei uma caçarola e pus um pouco de azeite e sobre ele quatro dentes de alho e um pouco de cebolinha picadinhos. Fechei a panela e deixei em fogo baixo por quase um minuto. A idéia é cozinhar o alho e a cebolinha, mais que os refogar. Depois, o conteúdo de uma lata de creme de leite magro – 300 gramas – e uma colher de chá bem cheia de mostrada de Dijon. Isso fica a tomar fogo por mais alguns minutos, até levantar fervura e sempre mechendo até engrossar.
Usei duzentos gramas de salmão fumado, que são suficientes para três pessoas, ainda bem porque eis um ingrediente caríssimo por estas plagas. Cortei as lâminas de salmão em quadradinhos pequenos, de menos de um centímetro de lado. Cortei também os camarões em três partes, cada um, já sem cabeças e rabos e descascados.
Foram para a panela os pedacinhos de salmão, de camarão e o sumo de meia lima da Pérsia. Meche-se sempre, sem parar e por pouco tempo, já que tanto peixe, quanto crustáceo já estão cozidos, um em fumaça, outro em água, e precisam de pouco tempo para contaminar tudo com seus sabores.
Tudo pronto, põe-se o talharim no prato, espalha-se o molho por cima e polvilha-se com pouco queijo parmesão ralado, que não chegará a derreter, o que somente ocorre se o quijo for muito ordinário. Por cima de tudo, pedacinhos bem pequenos de tomates secos. Acompanhamos com um chileno de uvas Merlot, pouco mais que razoável, mas resultou fantástico.
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Das piores experiências que há é esperar horas em consultório médico. Se o consultório for de ginecologista ou obstetra e tiver a sala de espera pequena, é pior. Não é apenas que haja muitas mulheres reunidas em pouco espaço e entregues à monomania da gestação, há mais.
Circunstancialmente, nestas plagas, as pessoas, todas elas quase, são dadas a falarem muito alto, o que me incomoda profundamente, mesmo sendo parcialmente surdo. Ao telefone, berram como se falassem a quilômetros de distância; a qualquer pretexto, falam como a convidarem os presentes, avidamente, para entabular conversa. Para quem está geralmente bem consigo em silêncio, é desafiador.
Mas, o pior constrói-se em camadas – como a personalidade do criminoso – e temos então a televisão, presente em todas as salas de espera, assim como as revistas de fotografias de atores de novelas e membros de realezas supranacionais. A televisão, esta sim é pior que a monomania que une os presentes numa sala de espera.
Há poucos dias, vi-me numa tal situação. Havia duas senhoras que gritavam no seu tom normal de comunicar-se e havia televisão, claro. Era já pelo meio-dia e começava o jornal televisivo das bobagens diárias, que se resumem a crimes, os mais aberrantes possíveis.
A TV noticiava com o escândalo de praxe mais um crime. Uma mulher namorava com seu amante, enquanto o esposo estava fora de casa. Eis que o filho de oito ou dez anos chega em casa e surpreende a traição da mãe. O erro do menino foi ter idade para compreender o fato e isso fechou sua sorte. Para evitar que o menino contasse ao pai, a melhor idéia que a mãe teve foi pedir ao amante que matasse o filho e assim o fulano fez.
Matou o menino e escondeu o corpo, não me lembro mais se enterrou ou pôs num saco, mas isso não importa. Eis o previsível escândalo, pois estava presente o pesar desproporcional de valores e objetivos que leva à comoção. Realmente, no elenco de crimes aptos a comoverem, o infanticídio encontra-se em posição privilegiada, quanto mais se por motivos fúteis.
A mãe e o amante, autores intelectual e material do crime, foram presos, expostos à habitual degradação pública, colocados em pé, lado a lado, enquanto um delegado com pendores artísticos dava entrevista com tudo que não importa ao deslinde de um crime, a expor tudo quanto juridicamente não é relevante. Mas, sabemos que os julgamentos são muito pouco jurídicos…
Nesse ponto, a senhora que falava aos gritos exaltou-se e, aos gritos, claro, começou a verbalizar o que o vulgo foi ensinado a pensar. Dizia, repetindo-se sempre, que o pior de tudo era a frieza da mulher, a secura dela, que não tinha vertido uma mísera lágrima enquanto confessava o crime. E repetia, e repetia, insistindo nisso de frieza e da ausência de lágrimas.
Primeiro, algo deve ser reposto ao seu lugar. Não me interesso por essas coisas como dramas, que são muito comuns. Sob este prisma, não me interessam, por falta de originalidade, por falta de apelo estético. Acontece que me detive a ver a TV e a fazer esforço para compreender o que a TV dizia. Primeiro, a mãe não confessava o crime, absolutamente, antes o negava. Segundo, ela sim chorava.
Isso pouco importa, sabemos, mas foi só um parêntesis. Também pouco importa, felizmente, o que se confessa na polícia, no Brasil, porque depois de uma surra o sujeito diz até ter roubado peças da Apollo 13.
O caso é que a senhora dos berros era todos em forma potenciada. Todos – ou quase todos, para sermos precisos, não indulgentes – criam o criminoso a partir de camadas de comportamentos, o que faz dele o crime. Paradoxalmente, a figura do criminoso, composta a partir de lugares-comuns moralizantes que em rigor nada significam, torna-se autônoma e ao mesmo tempo superposta e identificada ao crime em si.
Havendo uma figura criminosa não poderia ter deixado de haver crime, portanto. Eis a petição de príncipio que funda tudo nos julgamentos a partir de comoção moralizante do vulgo.
Quem olhe a coisa com mais calma sabe que o criminoso falar de um crime com frieza e sem lágrimas muda nada no resultado do crime. Na verdade, do ponto de vista estritamente jurídico, muda nada, tanto no crime, quanto na forma de apreciá-lo para o punir. O que o vulgo começa a colecionar em desimportâncias que o emocionam não constitui agravante nem atenuante do crime e não define absolutamente o tipo e a pena.
Aqui convém dizer que o vulgo a que me refiro não exclui os especialistas que tratarão do crime, aí incluídos polícias, promotores, juízes e advogados. Todos cabem muito confortavelmente no amplo e nunca bem entendido conceito de massa. Ela está sempre em busca de criminosos e quase sempre muito à vontade para deixar o crime em posição secundária.
A construção do criminoso, do sujeito anormal, é algo que lembra Foucault e é dele mesmo que me lembro agora e digo que não se trata de Vigiar e Punir, mas de outra obra, cujo nome não me vem à cabeça agora. O criminoso, nestes casos mais escandalosos a envolverem principalmente parentesco e motivos fúteis, é construído à parte do crime em si, por sucessivas deposições de aspectos de comportamento que isoladamente e até então nada significavam.
Depois de reunidos eles continuam a dizer nada, mas a obra que é a reunião desses comportamentos ganha vida própria, é a forma a tornar-se matéria. Um libelo clássico – seja ele dito em tribunal, na imprensa ou em conversas comuns – compõe-se da memória de que o criminosos maltratava animais na meninice; na juventude era retraído e calado e faltava às missas; nas primícias da idade adulta apresentava sexualidade desviante do número maior; já adulto comia só à mesa e gastava dinheiro demais. Assim, a coleção pode seguir com inúmeras circunstâncias desprovidas de significação para o que se quer dizer.
Essa construção sedimentar pode apontar para a psicopatia, realmente, mas não conduzirá a ela como se se fizesse ciência. Levará à montagem do criminoso, a figura que antecede necessariamente o crime. Com o criminoso pronto e acabado, é certo que há crime, tanto quanto é certo que do crime não se cuida, na verdade.
O crime, previsto em lei a partir de moldes bem estritos, é uma sofisticação descompassada com a sociedade. Ela não quer crimes e punições, ela quer criminosos e linchamentos e entrevistas e comoções e gritos e indignações fugazes à espera das próximas.
A mulher que não chorou ao confessar o assassinato do filho e que o fez friamente, mesmo que assim não tenha sido, é a mesma espectadora que gritou a frieza e ausência de prantos húmidos. Só se constrói o que se sabe, o que se é capaz de fazer a partir dos modelos detidos; assim, o criminoso é ao mesmo tempo um desenho do proscrito anormal e um espelho dos desenhadores.
Ainda pensei em dizer à gritadora: minha senhora, a falta de lágrimas e a frieza na confissão nada mudam no crime, já vi criminosos terríveis chorarem a quase se desidratarem. Mas, seria inútil como mandar soltar um leão enjaulado para enfrentá-lo, e sem a poesia de Cervantes.
No fim das contas, lembro-me de Mersault, que percebeu estar a ser julgado não por ter matado um árabe, mas por não ter chorado no enterro da mãe.
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É moda a classe média brasileira reclamar dos preços de serviços e produtos que adquire e eles são obscenos mesmo. O Brasil ficou caro antes de ficar bom de viver, o que é terrível de perceber para alguém como eu, que verá este país rico, mas provavelmente nunca o verá em padrões adequados de vida e de convívio.
Esses preços altíssimos de que reclama a classe média e que ensejam apropriação política oportunista como discurso oposicionista decorrem da postura dela classe média e das que lhe são superiores em termos de apropriação das rendas. Os estratos médios e altos fizeram tudo à medida para que houvesse o elevadíssimo custo que se vê.
A apropriação política dos altos preços brasileiros é algo que não merece abordagem superficial, como a que fazem meios de comunicação dominantes e imbecilizantes, tão bem aceites nas camadas que mais reclamam. Os media limitam-se à cantilena contra a carga tributária, que é alta, mas é alta para os mais pobres, não propriamente para as classes médias e altas.
A tributação brasileira é profundamente regressiva e violadora do princípio da capacidade contributiva, porque incide maioritariamente sobre o consumo. Sobre rendas e propriedade é muito baixa em termos comparativos. O que se encarece muito por tributos encarece-se igualmente para todos: quando eu, o acionista maior do Banco Itaú e alguém que vive com um salário mínimo compramos um quilo de carne, pagamos todos a mesma coisa em impostos, o que é suma injustiça e não demanda explicações do porque.
Uma parte dos altos preços no Brasil advem de aumento recente da procura, num mercado ávido por consumir, sem conhecimentos e sem parâmetros de comparação. Neste ambiente de elevação dos níveis de renda, é fácil praticar altas margens de lucros; é fácil cobrar caro por produtos e serviços medianos ou ruins.
Outra parte disso advem de custos de logística, o que é deficiência inegável num país que passou trinta anos sem gastar nisso e oito desses trinta a escutar que a milagrosa iniciativa privada gastaria no que o governo inibiu-se em gastar. A iniciativa privada nada mais fez que cobrar pelo uso daquilo que recebeu em concessão sem fazer qualquer investimento adicional.
Outro aspecto – o que os reclamantes não podem ver nem aceitar caso vejam – é a resultante inevitável da armadilha da predação, feita pelos que hoje reclamam e que os aprisionou.
Aqui, convém apontar os três pontos fundamentais do custo elevado de vida da classe média: habitação, educação e saúde.
Os preços de imóveis no Brasil não se explicam a partir da ortodoxia doutrinária. É claro que houve aumento grande da demanda das classes médias baixas ascendentes, forçando um aumento de preços dos imóveis visados por esta camada, mas isso não se aproxima minimamente da absurda valorização dos imóveis destinados às camadas mais altas.
O jogo da elevação de preços de imóveis para classes médias e altas seguiu altivo até níveis impudicos porque gerou ganhos especulativos para os adquirentes. Funciona – ainda – como esquemas de pirâmide, em que fica cada vez mais arriscado para os que entram tardiamente. Qualquer crise de desconfiança pora o esquema abaixo e implicará desvalorização profunda desses imóveis.
Se alguém me diz que, como investimento especulativo, vale à pena comprar imóveis pequenos destinados à classe média baixa porque ela apresenta demanda reprimida, eu acredito, faz sentido. Se, por outro lado, alguém me diz que a valsa de famílias de classes altas a comparem apartamentos imensos por preços superiores aos de Paris continuará até ao infinito, eu começo a desconfiar.
Estes últimos, são imóveis que se pretendem semelhantes àlguma moeda fiduciária que paga juros – como o dólar norte-americano – e isso tende a perder sentido à medida em que alguns se recusam a comprar as promissórias. Não há mesmo muito sentido em famílias terem dois ou três aparatamentos de luxo a acreditarem que outras famílias que também têm dois ou três dos mesmos quererão comprar o quarto.
Ou seja, o problema dos preços obscenos dos imóveis de classe média deve-se muito à atitude predatória da própria classe média e às margens de lucro também obscenas dos construtores. Um castelo de cartas que cairá e será bom que caia.
Com relação aos preços de educação e de saúde, as classes média e alta experimentam o que elas mesmas produziram, porque elas detém o poder político. Deixaram os serviços de educação e de saúde públicos tornarem-se ruins porque puderam fugir deles e fazer o Estado pagar para elas por serviços privados.
Ao mesmo tempo em que relegavam educação e saúde públicas ao sucateamento, porque eram para pobres, criavam formas refinadas de assalto ao Estado para que este lhes financiasse educação e saúde privadas, por meio de subsídios em descontos ficais, em subvenções a entidades privadas supostamente de interesse público, em planos de saúde coparticipados e outras variantes do engenho saqueador nacional.
Daí que o aumento dos preços de escolas particulares e de planos de saúde privada são coisas interiores ao modelo das classes média e alta, em que algumas corporações perceberam que tinham campo para ofertarem limitadamente e com mercado certo os serviços e assim cobrarem o que quisessem. Isso resolve-se muito simplesmente com o recurso ao setor público e quando as classes médias demandarem o Estado ele oferecerá educação e saúde adequadamente.
Há, claro, os pontos de reclamação que são difíceis – para quem honre os lóbulos frontais – de abordar excepto pela mais simples lógica capitalista. Restaurantes caríssimos com refeições medíocres, cafezinhos em aeroportos mais caros que em Heathrow, cerveja ruim a oito reais, tudo isso se arranja com o tempo ou com uma improvável recusa ao absurdo.
Agora, é desonesto não perceber que muito disso deve-se ao jogo criado pelos próprios reclamadores e às margens de lucro obscenas permitidas por um mercado imaturo, deslumbrado, que gasta como se gasta dinheiro roubado, que não tem mesmo qualquer gosto.
É patife por a conta em tributos ou em renda do trabalho, onde os manufaturados ainda são muito mais caros que os serviços, ou seja, onde o capital apropria muito mais que o trabalho.
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Um texto de Alcides Moreira da Gama
O amigo e mestre Andrei solicitou-me escrever algo sobre Machado de Assis. Nos tratamos mutuamente assim: mestre. Mas o discípulo sou eu. É um desafio e tanto. E, sinceramente, não sei se sou capaz. Mas, mesmo cônscio disso, vá lá, aceitei o desafio.
O que dizer sobre Machado? O Brasil, apesar de tudo, é um país em que, de quando em quando, surgem agradáveis surpresas. Muitos cidadãos desprovidos de condições mínimas para galgar uma vida digna conseguem vencer barreiras dificílimas para chegarem a um patamar social razoável.
Apenas para citar dois exemplos: todos conhecem a história de Lula, criança saída dos confins do agreste pernambucano, torneiro mecânico, semialfabetizado, como pejorativamente dizem, chegou a ser Presidente da República, deixando o cargo com uma popularidade excepcional; meu pai, sem a mínima condição social quando criança, sendo em algumas ocasiões rejeitado em ambientes públicos por conta de sua paupérrima indumentária, estudava em bancos de praça, pois não havia energia em casa, chegou a passar em vários concursos públicos, alguns na primeira colocação, logrando êxito também no vestibular para Letras, tendo abandonado o curso.
Por que cito esses exemplos? Machado foi desses sujeitos. Mulato, nascido em sociedade ainda escravagista, gago, epilético, fez o que fez. Verdadeiras obras primas da literatura brasileira, elegantemente bem escritas. Ele, agora do outro lado, assim com Brás Cubas, deve rir-se de nós, por tentar querer desvendar sua vida depois de morto.
Permita-me, Machado, indagar-lhe o porquê de tanta ironia nas suas obras. Parece-me que ninguém escapa de suas tintas. Percebo que é homem letrado e muito bem informado dos fatos políticos de sua época, mas não consigo captar se você – permita-me tratar-lhe assim – é republicano ou monarquista, se defende a abolição ou não.
É conhecedor das Escrituras, mas não se mostra se é ateu ou não. Talvez você me responda que são apenas obras de arte e que não retratam realmente a sua vida particular. Mas, eu na minha insignificância, insisto em dizer que os autores das obras de arte sempre querem transmitir algo. E você continuará rindo, afirmando que quis dizer sim algo. Na verdade, muitas coisas.
O nosso problema, Machado, é que nós, que não somos gênio, queremos adentrar na mente de um, ainda mais quando ele está morto. Queremos chegar aos seus pensamentos, suas ideias, por meio de suas obras. E aí alguns chegaram a várias conclusões sobre sua vida particular. E você responderia que se é particular não era para ser descoberta. Mais uma ironia de sua parte.
Por que não teve filhos, Machado? Você responderia que sua vida com Carolina foi a melhor vivida. Os críticos literários chegaram-lhe a diagnosticar infertilidade, e você continuará rindo de nós, indagando-nos se isso faria diferença. Afinal, revista de fuxico é do tempo de vocês e não da minha época.
Mas, Machado, falando nisso, se você estivesse entre nós hoje, o que faria? Você responderia que não faria nada, pois suas obras foram completas e continuam atuais.
Machado, isso não seria uma ponta de orgulho de sua parte, assim como ocorreu com Lalau? E você responderia que o orgulho de Lalau sou eu quem o afirma. De mais a mais, aqui do outro lado não existe orgulho. Aprendi isso com Brás Cubas.
A propósito, diria-me ele, curioso leitor Alcides, lembro-lhe a dedicatória de Brás: “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”.
Machado, a curiosidade que você nos aguça em Dom Casmurro é imensa. Bentinho foi traído ou não por Capitu? Responder-me-ia: todos os homens têm medo de serem traídos, mais que as mulheres. Mas não lhe responderei a pergunta, leia mais o livro.
E, por fim, arremato: Machado, por que tenho a sensação de pessimismo em suas obras? Porque na sociedade em que vivemos tudo parece tão belo e perfeito. E ele, como resposta, mostrar-me-ia trecho do último capítulo de Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.
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Autor e obra são coisas diversas e, exceto por quem gosta mais de fuxicos que de arte, o segundo é importante e o primeiro quase o não é. Talvez a contundência dessa afirmação deva-se ao paroxismo a que chegou o interesse por descobrir detalhes biográficos dos autores, numa atividade de investigação obstinada e fetichista em busca provavelmente de nada.
A biografia do autor é algo fundamental como referência histórica e isso vale até para artes que se pretendem abstratas.
Machado de Assis é tido como o maior escritor brasileiro e, particularmente, concordo com a opinião. Assim, é frequente a busca de um Machado que se revelaria fugazmente nas suas obras, numa espécie de jogo ambíguo do fino esteta que, dizem, era muito reservado com relação a detalhes de sua vida. Parte da crítica abandonou a crítica e passou a buscar a reconstrução de uma personagem a partir de várias.
Buscar conhecer as circunstâncias sociais e históricas de um autor é interessante, porque, afinal, sociologia e história são interessantes. Fazê-lo como investigação de causas e efeitos é, por seu turno, exercício de ficção ruim em segundo grau.
O fetiche está em crer que a obra é um jogo de chaves semi-ocultas para o próprio autor, mesmo que ela obra esteja lá, bela, imensa, válida por ela mesma e totalmente distante de ser um místerio de chaves subjetivas. Se as obras fossem sempre essas hagiologias de si mesmo, enigmas que conduzem ao psicológico do autor, seriam religiões iniciáticas e não peças de arte.
Por outro lado, é claro que as circunstâncias do autor descobrem-se nas obras, porque ele não é atemporal e porque o conhecimento imediato não é imediato, posto que ainda mediado por linguagem. O autor fala da única forma que pode, ou seja, a partir do que lhe fizeram seu tempo, sua classe social, sua educação, seu lugar.
Há pouco li um livrinho de Machado interessantíssimo: Casa Velha. A obra não foi publicada em forma de livro em vida de Machado. Ela surgiu em fascículos semanais ou quinzenais que saiam em períodicos, como se deu com outras obras dele. Todavia, somente foi editada em livro na década de 1940, trinta e tantos anos depois da morte de Machado.
Inicialmente, a crítica fez o que mais gosta: debruçar-se sobre uma lateralidade. A controvérsia era se Casa Velha era romanca pequeno ou conto grande. Pouco importa o rótulo, Casa Velha é obra valiosíssima e não tem qualquer coisa de autobiográfica, que foi a seguinte suposição da crítica.
Tem nada de autobiográfico, mas tem precisamente o que só poderia perceber quem viveu situação muito próxima aquela que se desenha no livrinho. A figura dos agregados a famílias ricas e muito ricas, não é suficientemente compreendida senão por quem a viveu.
O agregado é o ponto de contato entre a inflexibilidade social e a solidariedade no pequeno grupo. Ele entra num sistema de solidariedade e de intimidade familiar sem que as fronteiras invioláveis do pertencimento de classe sejam banidas. Talvez seja o elemento a explicar não ter havido desagregação social maior numa sociedade profundamente desigual e quase estamental, como era o Brasil no século XIX.
É pouco menos que óbvio que o primor do desenho de Casa Velha advenha de Machado ter ele mesmo sido de uma família agregada a uma grande casa senhorial no Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX. Não há artificialidades na casa senhorial – a Casa Velha – e nas relações que há nesse subsistema social.
O livro diz – é audacioso e até temerário dizê-lo, mas o livro diz mesmo – que a violação das fronteiras de classe por nascimento é o delito mais grave e portanto o que mais esforços deve implicar para ser evitado. E di-lo deliciosamente ao mesmo tempo em que expõe laços de solidariedade e intimidade cultivados com imensa força.
O paradoxo é fascinante. A agregada é afilhada da senhora, é acarinhada por ela, é por ela educada, é a quase-filha, é dotada pela senhora, mas resta-lhe uma única inviolável fronteira. Ela não se pode casar com o filho da senhora.
Ela é da Casa, mas não é da classe. Para evitar a união, a senhora é capaz de lançar mão do maior tabu social e sexual existente: o incesto. A mentira, a sugestão do incesto, a desonra que haveria por trás dessa suposição se verdadeira, tudo isso vale para fechar a última fronteira. Fica clara a hierarquia de valores instalados na cabeça da senhora, de todas as senhoras e senhores.
A imperatriz da Casa Velha é capaz de inventar que a agregada é filha de uma aventura extraconjugal de seu falecido marido – ex-ministro do Império – com toda a vergonha para si e agressão à memória do extinto que isso implica, para estancar um namoro que na verdade não violaria regras contra o incesto, violaria regras de imutabilidade social.
Machado percebeu muito bem a escala de valores dominantes e que o valor supremo permite uso e recurso às maiores mentiras e ao maior dos tabus, neste caso o incesto não ocorrido, mas sugerido como meio de separação.
O autor fala de situações que ele conheceu e compreendeu os mecanismos subjacentes à dinâmica social do tempo. Não se cuida de narrativa do que se passou com ele próprio, nem de fornecimento de chaves dissimuladas para a compreensão de algum enigma que tenha sido a vida dele autor. Essas duas última inclinações da crítica decorrem de impulso irrefreável para a superficialidade, para o culto do subjetivismo do autor e para o fetiche biográfico.
O Memorial de Aires, última obra machadiana, publicada no ano mesmo de sua morte, rende ainda mais ensejos à visão de enigmas e chaves autobiográficas. Aqui, creio que Machado fez de caso pensado, sabedor ele desse fetichismo e superficialidade que fazem a crítica e parte dos leitores tomarem a obra como objeto de curiosidade relativamente ao autor.
O Memorial – talvez mais que em outras – é culto à beleza da língua como raro ocorreu na literatura brasileira. O esteta inteligentíssimo dá-se a formas narrativas pouco habituais, relativamente livres e escreve numa concisão de coluna dórica. Essas bobagens de realista ou parnasiano, ou mistura dos dois, são prisões que conduzem o crítico e o leitor a nada, tratando-se desta obra. As memórias são do diplomata Aires, não do escritor Machado.
Aqui, a crítica vê as suas sempre presentes chaves autobiográficas no casal sem filhos e em que a esposa é cultuada. Machado e Carolina não tiveram filhos e a admiração séria dele por ela é conhecida e foi reforçada pelo soneto A Carolina, composto logo após a morte dela.
É claro que ele pode compor um casal harmônico no companheirismo e cumplicidade profundos e sem filhos porque deve ter vivido conjugalmente assim e sem filhos. Mas, daí a fazer desse casal o que ele compunha com Carolina vai imensa distância. Machado era, segundo todos dizem, profundamente reservado e até distante no que se referia à sua vida pessoal. Seria estranho que quisesse, assim impudica e superficialmente, expor no derradeiro livro ela e ele, postos a nu, a claro, às vistas de todos.
Por outro lado, nada leva necessariamente a crer que Machado e Carolina tivessem a ausência de filhos como alguma ferida, como dá-se com as personagens Aguiar do Memorial. Novamente, pode haver aqui a inteligente piada e talvez a pista falsa deixada para os intérpretes que funcionam a partir das categorias sentimentais pré-ordenadas. Sagacidade e ironia para fazê-lo ele tinha a sobrar.
De qualquer forma que seja, essas duas obras são as que revelam mais precisamente o que Machado viveu, quais as circunstâncias sociais em que viveu. Todavia, isto vai longe de serem as pistas para a percepção do que foi um personagem a ser biografado em termos psicológicos, ele que tão psicólogo social não faria o que sabia impossível e, ademais, redutor.
É profudamente redutor supor que Machado não soubesse da enormidade de sua obra em termos artísticos e quisesse, assim, propor os enigmas que conduziriam à sua hagiografia de falsas sutilezas por professores críticos profissionais. Também é bastante improvável que os mesmos críticos tenham percebido isto, presos que são ao que são.
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Um ponto de contacto entre as corporações militares, judiciárias e clericais é a reinvidicação da infalibilidade e do direito a ser farsesco de maneira irresponsável. Assim, mesmo depois da farsa desvelada ela mantém-se e as reparações se fazem como soluções compromisso: é formula intrinsecamente contraditória do estava errado e estava certo.
Isso, claro, acontece muito por conta de um sistema interno de cumplicidades, sem o que desmoronariam mais rapidamente e, principalmente, sem o recurso às contradições profundas.
Em 1894 o capitão Alfred Dreyfus foi condenado – se não me engano em quatro ou cinco dias – por alta traição à França. O capitão, segundo apuraram os sábios do conselho de guerra, passara segredos militares para um adido militar da Embaixada da Alemanha em Paris. A prova essencial era um documento sempre mencionado e afinal simplesmente inexistente.
A prova realmente usada, a que deu ensejo ao início da farsa linchadora, era a simples afirmação de que a caligrafia da carta encontrada no lixo da Embaixada era de Dreyfus. Um qualquer oficial do exército francês disse que a letra era de Dreyfus porque já vira qualquer coisa escrita à mão por ele. Só isso. Nada importou que um perito, um funcionário do Banco da França, então o maior especialista em grafotécnica, dissesse que não havia como dizer que a caligrafia era de Dreyfus…
O oficial judeu foi degradado publicamente, em frente à Escola Militar e mandado para cumprir prisão perpétua na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Pouco depois, o chefe dos serviços secretos militares descobriu um telegrama enviado por um oficial superior do exército francês ao adido militar alemão. Um documento autêntico que, sim, revelava segredos militares aos eternos inimigos.
O homem teve capacidade de indignar-se e falar da descoberta com oficiais generais, inclusive do tribunal que é o conselho de guerra. Obviamente que passou a ser ameaçado e perdeu a chefia dos serviços secretos. Com o intuito de proteger-se de retaliações mais profundas e menos formais, ele deu a conhecer o episódio e deu o próprio documento a um advogado renomado de Paris, pedindo-lhe que guardasse sigilo e só tratasse do assunto caso solicitado.
O advogado parece que tinha ainda mais capacidade de indignar-se e – ante a imensa e estúpida injustiça cometida contra Dreyfus – procurou um vice-presidente do Senado francês. O parlamentar procurou os infalíveis fardados-togados e a reação foi violenta e no sentido de deixar-se tudo como estava.
A insistência, porém, levou o autor do telegrama traidor da pátria, de autoria certa, ao conselho de guerra, para julgamento. Charles Esterhazy, major do exército francês, autor das correspondências para o adido alemão, era um escroque, chantagista, mal-caráter, jogador, metido em inúmeras dívidas, e foi absolvido no conselho de guerra em questão de 48 horas.
O sistema de cumplicidades que leva à proteção de pequenos e infames delinquentes como Esterhazy envolve coisas como saber as corrupções do general fulano, na compra de materiais bélicos, ou com qual polonesa o general sicrano vai ter à noite. Não raro, os Esterhazy são sumariamente liquidados, quando isso é possível sem muito escândalo. Na ocasião, não era.
Outra coisa a permitir que siga a farsa e não desmorone rapidamente, além dessas cumplicidades criminosas de gabinete, é a imensa propensão do público médio à histeria a partir de alguma idéia aglutinadora o mais tola possível: no caso, o antissemitismo. Dreyfus era judeu e, portanto, culpado à partida, posto que essa invenção tão genial quanto ausente de sentido que é o antissemitismo, à época, formava culpa prévia por qualquer coisa.
É conveniente fazer aqui um pequeno parêntesis para dizer que, hoje, o antisionismo produz o mesmo efeito alucinatório nas massas, e hoje porque é confundido com o antissemitismo, embora sejam coisas nitidamente diferentes. Os deuses têm que se divertir, enfim.
A absurdidade profunda não comunica qualquer coisa às massas médias, mas instiga reações em alguns seres mais que médios. Após a segunda volta da farsa, que foi a absolvição de Esterhazy a despeito de haver provas inequívocas, a coisa foi a ponto de meter em brios um homem que já era velho e de polêmicas aparentemente já se fartara: Emílio Zola.
Ele escreveu a famosíssima peça Eu Acuso, publicada numa espetacular tiragem de 300.000 exemplares por Clemanceau. Este último, por sinal, foi quem deu o fantástico e contundente título, posto que Zola havia intitulado o escrito de outra forma, algo como a emergência da verdade, mas não me lembro agora exatamente, nem vou pesquisar.
Zola não ressuscitou do mundo dos polemistas, até porque polemista era na verdade maneira depreciativa de tratar o grande artista das letras e o caso Dreyfus não cuidava senão de infâmia profunda, não de polêmica superficial. Zola acusa, um a um, os oficias fardados-togados do conselho de guerra e diz esperar o processo que contra ele se abrirá e que o condenará. Quem percebe os grandes passos não duvida da condenação. Ela houve, claro, e Zola foi para a Inglaterra.
A questão de fundo era a República francesa e o anseio de retorno da monarquia, ou seja, questão de poder. As linhas do caso evidenciam-no, na medida em que essencialmente traidores da nação são os monarcas e as casas reais, cujos compromissos e cumplicidades estabelecem-se entre famílias – pouco importando países ou nações – e não com um grupo identificado por língua, costumes, cultura, fronteiras.
O hiato da monarquia na França era já bastante longo, porque Napoleão III não foi um episódio político monáquico, senão o anúncio da única forma de existência estável da França: um império, ainda que decadente, sem dinastia. De Gaulle o percebeu, o próprio Giscard – com todo o ridículo do protocolo real – também, Chirac compreendeu muito bem e, principalmente Mitterand.
A partir de uma mentira pueril, sem provas quaisquer, monta-se a farsa que iria dar no golpe contra a República. Para chegar próximo ao ideal, havia um oficial judeu à disposição.
Depois da absolvição de Esterhazy e da condenação de Zola, as pressões tornaram-se insuportáveis e o governo – gabinete e parlamento – percebeu que era melhor salvar o regime a proteger incondicionalmente a casta fardada-togada. Estava em jogo eles mesmo, enfim, e a França também. Estava em jogo, ainda que tenuemente, o porquê de 1873. Alguém mais apressado diria que o exército era, ele mesmo, por seu comando, traidor da nação.
Fato é que já no século XX, em mil novecentos e poucos, depois das evidências gritantes fazerem seu papel e os políticos perceberem que estavam eles próprios em risco, Dreyfus é indultado pelo presidente da república. O perdão presidencial ocorreu depois da morte de Zola, em 1902, em circunstâncias muito suspeitas, que levaram o filho, inclusive, a suspeitar de homicídio.
O mais interessante nisso é outra contradição fundamental reveladora da força da cumplicidade interna às corporações poderosas: o perdão a Dreyfus não implicou a culpa de quem culpado era, nem a culpa dos que o condenaram sumariamente sem quaisquer provas. É como se as corporações fardadas-togadas fossem totalmente irresponsáveis. Erram e o erro não é erro.
Cento e dez anos depois, coincidências perfeitamente adequadas à história, o mesmo dá-se no Brasil, qualitativamente. Uma farsa possivelmente virá abaixo, mas os farsantes não terão errado. A contradição e a irresponsabilidade são próprios de certos grupos corporativos detentores de poder, e notadamente dos grupos fardados-militares.
Ainda que seus erros sejam evidenciados, produz-se uma solução de compromisso em que se reabilitam os injustiçados e se mantém intocados os linchadores.

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